Em Fernando de Noronha, a realidade de muitos trabalhadores envolve longas jornadas de trabalho, que chegam a 16 horas por dia, sem folgas e distantes de suas famílias. Essa rotina exaustiva tem gerado sérios reflexos na saúde mental da população local, refletindo em um aumento significativo nos atendimentos psicológicos na ilha.

Impactos na Saúde Mental

A coordenadora de Saúde Mental da Administração de Noronha, Anne Souza de Lorena, revelou que aproximadamente 80% dos casos atendidos estão relacionados à ansiedade e depressão. Embora o termo 'Neuronha' tenha se popularizado entre os habitantes para descrever esse estado emocional, ele não é reconhecido oficialmente como uma condição médica. “Neuronha é uma brincadeira. O que observamos realmente é a ansiedade relacionada às peculiaridades da vida insular”, explicou Anne Lorena.

Atualmente, cerca de 180 pacientes recebem acompanhamento psicológico e psiquiátrico na ilha, enquanto 20 pessoas esperam por atendimento. Isso demonstra a crescente demanda por suporte emocional, especialmente entre os trabalhadores que vêm do continente.

Ansiedade Insular

O isolamento geográfico de Fernando de Noronha é um fator crucial que contribui para o aumento da ansiedade entre os seus moradores. Segundo Anne Lorena, muitos que buscam ajuda relatam sofrimento devido à distância da família e ao sentimento de isolamento. “Cerca de 80% dos atendidos são trabalhadores do continente, muitos acumulando mais de uma função para complementar a renda”, observou.

Esses profissionais costumam operar em empregos formais durante o dia e realizar serviços extras à noite, resultando em pouco sono, alimentação inadequada e escassas opções de lazer, o que agrava a situação. O alto custo de vida na ilha leva muitos a buscar trabalho informal, intensificando a pressão sobre sua saúde mental.

Sentimento de Prisão

Uma camareira de 23 anos, oriunda do interior de Pernambuco, compartilhou sua experiência, relatando a dificuldade em lidar com a saudade da família. Após seis meses na ilha, ela decidiu pedir demissão e aguarda a oportunidade de voltar. “As folgas são um tormento. Fico pensando na família e, às vezes, choro. Sinto como se estivesse presa, pois não posso visitar minha família quando estou triste”, comentou.

Para evitar a solidão nos momentos livres, ela começou a trabalhar em atividades extras, chegando a acumular jornadas de 16 horas. “Prefiro me manter ocupada para não pensar tanto na saudade”, revelou.

Crescimento na Demanda por Atendimento

Apesar dos sintomas de ansiedade, muitos, como a camareira, não buscam ajuda profissional. No entanto, o governo local observa um aumento na procura por atendimento psicológico, com a equipe de saúde mental crescendo de quatro para nove profissionais nos últimos dois anos. Anne Lorena acredita que os números ainda não refletem a realidade total, afirmando: “Esses dados são apenas a ponta do iceberg. Muitas pessoas sofrem em silêncio e não buscam ajuda”.