O Ibovespa, principal índice da B3, viu sua trajetória em direção aos 200 mil pontos ser interrompida nas últimas semanas, após ter flertado com essa marca em abril. O movimento reflete uma combinação de choques externos, deterioração das expectativas de juros e fatores técnicos do mercado, conforme analisado em relatório da Ágora Investimentos.

Quase alcançado

No dia 14 de abril, o Ibovespa atingiu a máxima intraday de 199.354,81 pontos, ficando a apenas 645 pontos da marca histórica. Contudo, o que parecia uma questão de horas para a superação desse patamar se transformou em semanas de frustração com a reversão do humor do mercado.

Choques externos alteram o cenário

A Ágora Investimentos aponta que o principal fator que desencadeou essa mudança foi a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que reacendeu as preocupações com a inflação global. A pressão inflacionária emergiu de três frentes principais: a alta do petróleo, o encarecimento dos fertilizantes e o aumento do preço do etileno, impactando diretamente a indústria.

Impacto sobre os juros

Com esse novo cenário, as expectativas para a política monetária nos países desenvolvidos foram reavaliadas, levando o Federal Reserve e o Banco Central Europeu a abandonarem, mesmo que parcialmente, o viés acomodatício anteriormente esperado. Essa reprecificação teve um efeito imediato nos mercados emergentes, incluindo o Brasil, afetando a curva de juros.

Cenário doméstico e perspectivas

A curva de juros futuros (DI) no Brasil registrou uma abertura significativa, especialmente nos vértices mais longos, com um aumento de aproximadamente 0,80 ponto percentual entre janeiro e maio. Os investidores agora esperam apenas mais um corte na Selic e uma possível pausa antecipada no ciclo de afrouxamento, o que representa o ciclo de cortes mais curto desde os anos 2000.

Valuation atrativo, mas desafios persistem

Apesar de o Ibovespa apresentar um valuation considerado atrativo, com negociações em cerca de 8,5 vezes os lucros projetados, o relatório destaca que fatores como a reprecificação da política monetária e a sazonalidade negativa de fluxo estrangeiro têm limitado seu avanço. Historicamente, entre maio e setembro, a entrada de capital estrangeiro diminui, o que torna essa questão ainda mais relevante para o mercado.

O futuro do Ibovespa

A Ágora Investimentos mantém uma perspectiva positiva para o médio prazo, apoiada em quatro pilares: valuation descontado, continuidade do ciclo de queda de juros, possíveis estímulos econômicos com as eleições e a fraqueza do dólar. Apesar dos desafios atuais, a marca de 200 mil pontos ainda está no horizonte, e a expectativa é de que a “festa” seja apenas adiada, aguardando condições mais favoráveis tanto no cenário global quanto doméstico.