A história de Xica Manicongo, reconhecida como a primeira mulher trans do Brasil colonial, é uma fascinante narrativa que atravessa três continentes. Sua trajetória se entrelaça com a Inquisição e as tradições africanas, especialmente do reino do Congo, que se tornou oficialmente católico, mas enfrentou a exploração escravista dos portugueses.
Revelando a Biografia de Xica
Documentos em português do século 16 e italiano do século 17 fornecem pistas sobre a vida de Xica Manicongo. O antropólogo e ativista Luiz Mott, que lançou um livro sobre a figura histórica, decidiu incorporar o pajubá, um dialeto influenciado pelo iorubá, na sua narrativa para atingir um público mais amplo, especialmente travestis e mulheres trans.
O Livro e a Personagem
No seu novo livro, “Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil”, Mott revela que Xica pode ter sido uma quimbanda, uma sacerdotisa das tradições africanas. Os relatos de missionários sugerem que essas figuras eram biologicamente do sexo masculino, mas cresciam em um ambiente que as encorajava a adotar comportamentos e vestimentas femininas desde a infância.
Identidade e Nome
O nome “Xica” é uma designação moderna, enquanto na Bahia do final do século 16, ela era chamada de Francisco Manicongo. Essa nomenclatura é significativa, pois “Manicongo” era um título associado aos reis do Congo, que mantinham relações diplomáticas com Portugal desde 1485.
A Escravidão e as Denúncias
Apesar de sua linhagem, Xica foi capturada e vendida como escravizada. Documentos da Inquisição revelam que seu nome apareceu em registros de investigações sobre práticas sexuais consideradas ilícitas na época, indicando sua vivência em um contexto de opressão e resistência.
A Influência do Pajubá
O uso do pajubá por Mott visa criar uma conexão com as novas gerações, aproximando-as da história de Xica Manicongo. O termo “Xica” foi popularizado em 2010 pela ativista Majorie Marchi e inspirou o samba-enredo da escola Paraíso do Tuiuti, refletindo uma reinterpretação cultural que Mott apoia.
