A construção civil brasileira atravessa um momento delicado, marcado por um estrangulamento operacional que compromete a continuidade de projetos em diversas regiões. O setor enfrenta um cenário de altos juros e inflação, resultando em longos períodos de espera para a liberação de recursos financeiros por parte dos bancos, que podem chegar a até 90 dias. Essa situação tem um impacto direto nas finanças das incorporadoras, prejudicando o cronograma das obras e forçando uma reavaliação da gestão financeira das empresas.

Impacto nas projeções do setor

De acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), apesar de um desempenho positivo no primeiro trimestre de 2026, que contribuiu para a criação de mais de 120 mil empregos e manteve cerca de 3 milhões de trabalhadores formais, a entidade revisou sua previsão de crescimento para o ano, reduzindo de 2% para 1,2%. Esse ajuste deve-se principalmente ao aumento dos custos de materiais, impulsionados por fatores como a alta do petróleo e tensões no Oriente Médio, que resultaram em um aumento de 1,4% no INCC-M em abril.

Os desafios do financiamento tradicional

Os dados do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), divulgados pela Abecip, refletem uma instabilidade no financiamento para construtoras. Em 2024, o volume de recursos liberados atingiu R$ 46,2 bilhões, mas em 2025 houve uma queda para R$ 30,8 bilhões. Embora o início de 2026 tenha mostrado uma recuperação com R$ 14,4 bilhões, a morosidade dos bancos continua a ser um entrave significativo, levando as construtoras a atrasar compras essenciais e interromper etapas das obras.

Alternativas financeiras em alta

A busca por soluções alternativas está crescendo à medida que a urgência no canteiro de obras contrasta com a lentidão do sistema bancário. Segundo a Anbima, o mercado de crédito privado movimentou R$ 192,8 bilhões no primeiro trimestre de 2026, com destaque para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), que registraram uma captação líquida de R$ 4,5 bilhões em abril, mostrando-se uma opção atraente para muitas empresas.

Funcionamento e vantagens dos FIDCs

Os FIDCs funcionam adquirindo ou estruturando recebíveis, como contratos e duplicatas, transformando esses fluxos futuros em liquidez imediata para as empresas. Vicente Guimarães, Diretor de RI do Grupo IOX, ressalta que essa modalidade de crédito é vista como uma alternativa conectada à economia real, oferecendo uma estrutura mais organizada que favorece tanto as empresas quanto os investidores.

A adaptação do setor imobiliário

Para as incorporadoras de médio porte, que frequentemente enfrentam dificuldades com os grandes bancos, os FIDCs surgem como uma solução viável. Caruso, CEO da Pilar Capital, destaca que o setor não pode depender de um único modelo de financiamento devido à necessidade de decisões rápidas durante o ciclo de construção. Essa flexibilidade se torna crucial para a sustentabilidade e o crescimento do setor imobiliário no Brasil.